A coprofagia — termo técnico para o comportamento de ingerir fezes — é uma das situações que mais preocupa e desconcerta tutores de cães idosos. Ver um cachorro que você ama fazer isso pode causar nojo, confusão e, principalmente, dúvidas sobre o que está errado com ele. A boa notícia é que esse comportamento tem causas identificáveis e, na maioria dos casos, solução.
Em cães seniores, a coprofagia merece atenção redobrada porque, diferentemente de filhotes (que frequentemente fazem isso por curiosidade e param sozinhos), no animal mais velho o comportamento quase sempre sinaliza algo que precisa ser investigado — seja uma deficiência nutricional, uma doença subjacente ou uma mudança cognitiva ligada ao envelhecimento.

Neste artigo, você vai entender por que cachorros idosos comem fezes, quais sinais indicam urgência médica, como agir em casa e quando procurar o veterinário. As informações aqui apresentadas têm base em conhecimento veterinário consolidado e foram organizadas para que você possa tomar decisões práticas e seguras para o seu pet.
O que é coprofagia e por que ela aparece com mais frequência em cães velhos
A coprofagia pode ser classificada em dois tipos principais: autocoprofagia (quando o cão come as próprias fezes) e alocoprofagia (quando come as fezes de outros animais). Em cães idosos, ambas as formas ocorrem, mas a autocoprofagia é a mais comum e a que geralmente tem relação direta com a saúde do animal.
O envelhecimento traz mudanças fisiológicas significativas. O metabolismo fica mais lento, a absorção de nutrientes diminui, e o sistema digestivo passa a funcionar de forma menos eficiente. Isso cria um cenário propício para que o cão “detecte” nas próprias fezes resíduos de nutrientes não absorvidos — e instintivamente tente reaproveitá-los.
Além disso, condições como o Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina (SDCC), equivalente ao Alzheimer humano, podem fazer com que o cão perca referências comportamentais aprendidas ao longo da vida, incluindo a aversão natural às fezes.
Principais causas em cães idosos
Identificar a causa correta é o primeiro passo para resolver o problema. Veja as razões mais comuns:
Deficiências nutricionais e má absorção intestinal
Com a idade, o trato gastrointestinal do cão perde eficiência na absorção de vitaminas, minerais e proteínas. Quando o organismo não aproveita adequadamente os nutrientes da ração, as fezes ainda contêm resíduos “aproveitáveis” — e o instinto do animal pode levá-lo a consumi-las.
Deficiências de vitaminas do complexo B, zinco e enzimas digestivas são frequentemente apontadas como gatilhos. Uma ração de baixa qualidade, inadequada para cães seniores, pode agravar muito esse quadro.
Doenças que aumentam o apetite
Algumas condições clínicas causam fome intensa e compulsiva. As principais são:
- Diabetes mellitus canina — o cão come muito, mas as células não absorvem a glicose corretamente, gerando sensação constante de fome.
- Síndrome de Cushing (hiperadrenocorticismo) — causa polifagia (apetite excessivo), entre outros sintomas.
- Hipotireoidismo — altera o metabolismo e pode gerar comportamentos alimentares alterados.
- Insuficiência pancreática exócrina (IPE) — o pâncreas não produz enzimas suficientes, prejudicando a digestão e a absorção de nutrientes.
Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina
A SDCC afeta uma parcela significativa dos cães com mais de dez anos. Os sintomas incluem desorientação, alterações no ciclo sono-vigília, ansiedade e mudanças de comportamento — entre elas, a coprofagia. O cão “esquece” que não deve comer fezes, assim como pode “esquecer” onde faz as necessidades dentro de casa.
Ansiedade, estresse e tédio
Cães idosos que ficam longos períodos sozinhos, que perderam um companheiro animal ou que passaram por mudanças na rotina podem desenvolver comportamentos compulsivos, incluindo comer fezes. É uma forma de lidar com o estresse emocional.
Comportamento aprendido
Em alguns casos, o cão aprendeu ainda jovem que fezes têm algum valor (por imitação de outros animais ou por reforço acidental) e o comportamento simplesmente persiste — ou ressurge na velhice com menos inibição.
Riscos à saúde que a coprofagia representa
Além de ser desagradável para o tutor, comer fezes pode trazer riscos concretos para a saúde do cão idoso, cujo sistema imunológico já é naturalmente mais vulnerável.
As fezes podem conter parasitas intestinais como giárdias, toxocara e ancilostomídeos, além de bactérias patogênicas como Salmonella e Campylobacter. Em um cão jovem e saudável, a exposição pode não causar sintomas graves. Em um idoso, a situação é diferente — a imunidade reduzida torna o risco de infecção muito maior.
Segundo orientações do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), parasitoses intestinais em cães idosos devem ser tratadas com atenção especial, já que o organismo envelhecido responde de forma menos eficiente aos tratamentos e os sintomas podem evoluir rapidamente.

O que fazer: abordagem prática passo a passo
Se o seu cão idoso está comendo fezes, a abordagem mais eficaz combina avaliação veterinária com ajustes no manejo diário. Veja como agir:
1. Consulte o veterinário sem demora
O primeiro passo é descartar (ou tratar) causas médicas. O veterinário provavelmente pedirá exames de sangue completos, urina e fezes para avaliar função pancreática, renal, hepática e presença de parasitas. Não tente resolver sozinho sem investigar a causa raiz.
2. Reavalie a alimentação
Verifique se a ração oferecida é formulada especificamente para cães seniores. Rações para adultos jovens podem não atender às necessidades nutricionais de um cão mais velho. O veterinário pode indicar suplementação de enzimas digestivas ou de vitaminas do complexo B.
Em alguns casos, a transição para uma dieta com maior digestibilidade resolve ou reduz significativamente a coprofagia em poucas semanas.
3. Remova as fezes imediatamente
Parece óbvio, mas é fundamental: não deixe fezes acessíveis. Recolha imediatamente após o cão evacuar. Em ambientes onde há mais de um animal, o controle precisa ser ainda mais rigoroso.
4. Enriqueça o ambiente e reduza o estresse
Para cães com componente emocional ou cognitivo, enriquecer o ambiente ajuda muito. Ofereça brinquedos interativos adequados à idade, mantenha rotinas previsíveis e garanta tempo de atenção e afeto diário. Se o problema tiver origem na SDCC, o veterinário pode indicar medicações específicas para manejo cognitivo.
5. Produtos repelentes para fezes
Existem suplementos e aditivos alimentares disponíveis em pet shops e clínicas veterinárias que tornam as fezes menos atrativas ao olfato do cão. Eles não resolvem a causa raiz, mas podem ser úteis como medida auxiliar enquanto o tratamento principal é realizado. Consulte o veterinário antes de usar qualquer produto.
Perguntas Frequentes
Cachorro idoso comendo fezes pode contaminar humanos?
Sim, existe risco. Alguns parasitas e bactérias presentes nas fezes são zoonóticos, ou seja, podem ser transmitidos ao ser humano. Após o cão ingerir fezes, evite que ele lambeça rostos, especialmente de crianças e pessoas imunossuprimidas. Higiene das mãos e do ambiente é essencial.
Isso é normal em cães velhos ou sempre indica doença?
Não é considerado “normal”, mas é relativamente comum em cães seniores. O comportamento quase sempre tem uma causa identificável — seja nutricional, clínica ou comportamental. Nunca deve ser ignorado como “coisa de velho”. A investigação veterinária é sempre recomendada.
Quanto tempo leva para o comportamento parar após o tratamento?
Depende da causa. Quando há deficiência nutricional e a dieta é corrigida, muitos tutores relatam melhora em duas a quatro semanas. Em casos ligados à SDCC, o comportamento pode ser controlado, mas não totalmente eliminado. Cada caso tem sua particularidade.
Posso punir o cão para que ele pare de comer fezes?
Não. Punição física ou verbal não resolve o problema e piora o quadro emocional do animal, especialmente em idosos que já podem estar ansiosos ou cognitivamente comprometidos. O foco deve ser entender e tratar a causa, não punir o sintoma.
Considerações Finais
Ver um cachorro idoso comendo fezes é, sem dúvida, uma experiência perturbadora. Mas esse comportamento é um sinal — não uma falha de caráter do animal. Ele está comunicando, à sua maneira, que algo não está bem: pode ser fome metabólica por má absorção, uma doença silenciosa que ainda não foi diagnosticada, ou a desorientação trazida pelo envelhecimento cognitivo.
A melhor coisa que você pode fazer como tutor é agir sem demora: agendar uma consulta veterinária, observar outros sintomas que acompanhem o comportamento (perda de peso, aumento de sede, letargia, desorientação) e ajustar o manejo diário enquanto a causa é investigada.
Cães idosos merecem cuidado especialmente atento. Com a abordagem certa, é totalmente possível melhorar a qualidade de vida do seu companheiro — e encerrar esse comportamento de uma vez por todas.




1 comentário